Segundo Roberto Burle Marx no livro Arte e Paisagem, Conferências Escolhidas – Editora Nobel, 1987, “o jardim é como sinônimo de adequação do meio ecológico para atender às exigências naturais da civilização”.
Além de ser um antídoto contra o estresse, o paisagismo hoje é considerado investimento, pois além de ajudar na negociação de um imóvel, pode resultar em valorização em taxas que variam de 10% e 15%.
A paixão do ser humano pelos jardins não é sem motivos, pois a história da humanidade começa num belo jardim, sem dúvida o mais belo de todos – projetado para encantar e atender as necessidades do primeiro casal.
O paisagismo é também uma arte e como toda arte tem origem intelectual e é o reflexo da civilização, fruto de uma corrente de idéias e a marca de uma época. Para compreender os diversos estilos que coexistem em nossos dias é necessário estudar a História ou Evolução dos Jardins.
Mas, visto que a pergunta levantada é sobre como encontrar equilíbrio no projeto paisagístico vamos ao que interessa.
Planejar um jardim parece aos olhos de quem vê uma tarefa um tanto simples, mas esta tarefa envolve vários fatores importantes, entre eles e talvez o mais importante é o fato de estarmos lidando com seres vivos em constante mutação na própria busca de equilíbrio.
Mas, além desse fator, pode-se dizer que é impossível criar um jardim harmonioso e equilibrado sem o uso de Metodologia. Trata-se do estudo de métodos aplicado à solução de problemas teóricos e práticos, portanto, a metodologia é um instrumento de trabalho ou suporte. Ela não se limita ao levantamento de dados, mas utiliza-se de teorias, conceituação de problemas, formulação de hipóteses, criação de modelos, etc.
O bom planejamento paisagístico segue alguns passos:
1- Levantamento técnico e teórico, levando em conta:
a- Dimensões e forma do espaço a ser trabalhado.
b- Orientação geográfica.
c- Verificação da implantação das edificações e de suas aberturas (portas e janelas).
d- Verificação das estruturas aparentes e/ou subterrâneas (rede de água, esgoto, elétrica, distribuição de drenos e coletas de água, caixas de passagem, etc).
e- Topografia.
f- Localização e catalogação das espécies vegetais existentes no local.
2- Análise dos elementos naturais:
a- Fatores climáticos tais como direção e ocorrência de ventos dominantes, umidade, ocorrência de chuvas, temperatura, insolação – mapeando a variação de luz e sombra e as zonas de luz e sombra.
b- Vegetação – estado da vegetação existente, porte, diâmetro da copa. Vegetação da vizinhança, para poder detectar quais se adaptam melhor a região a ser trabalhada.
c- Circulações (caminhos) existentes e os necessários.
d- Edificações vizinhas e a paisagem do entorno (as vistas que dão para o jardim – quais destacar e quais esconder).
e- Análise visual do solo – textura, fertilidade, consistência. Caso se faça necessário uma análise mais minuciosa, é bom contar com a assessoria de um agrônomo.
3- Análise dos usuários.
a- Necessidades materiais. Entre elas: realçar ou disfarçar defeitos, controlar a erosão do solo, reforçar elementos de segurança, evitar espécies venenosas, criar vedação visual ou sonora, etc.
b- Necessidades práticas. Entre elas: custo de implantação e manutenção, ausência ou presença de pessoas para cuidar da manutenção; facilidade na manutenção; cultivo para uso culinário; convivência de plantas e animais;
c- Necessidades emocionais. Sensações e preferências por cores, perfumes, formas, texturas. Preferência ou antipatia por alguma espécie. Aproveitamento de elementos naturais existentes.
d- Necessidades comunitárias e sociais. Área de convivência e lazer.
e- Prioridades e necessidades específicas de usuários.
4- Elaboração do projeto.
a- Pesquisas específicas
b- Estudo preliminar. Uso de croquis. Zoneamento de áreas a serem trabalhadas e definição de circulações e preservação ou não de vegetação existente. Composição de formas e volumes.
c- Anteprojeto. Desenhos em plantas, cortes esquemáticos, elevações, perspectivas. Definição de materiais e elementos inertes, iluminação, etc.
d- Memorial descritivo. Dissertação definindo condições determinantes e a filosofia do projeto, inclusive a escolha das espécies.
e- Projeto executivo. Apresentado por meio gráfico – plantas, cortes, elevações, detalhamentos, cotas, especificação de materiais e elementos, paginação de piso, sistema de irrigação, drenagem e iluminação, etc. Obviamente de acordo com o grau de formação do paisagista, em determinadas áreas, este necessitará de assessoria técnica de outros profissionais habilitados.
f- Projeto de plantação. Locação e especificação das espécies vegetais (uso de legenda com nome vulgar e científico, quantidade e porte da muda), manual com dados de implantação, manutenção e cuidados.
g- Planilha orçamentária com o custo de todos os elementos a serem utilizados e não apenas das espécies.
Algumas pessoas administram isso tudo com maestria, sem apego rigoroso a regras. Mas, esses são raros!
De modo geral, o paisagismo requer conhecimentos diversos – como artes, ciências humanas e naturais, organização de espaços, estética, preceitos técnicos, etc, além é claro de espécies vegetais.
A preocupação com os preceitos técnicos, abordados acima, juntamente com os aspectos estéticos tal como arquitetura, proporção, harmonia, ritmo, dominância, etc, acrescido da escolha esteticamente adequada de vegetação que combine entre si, facilitarão no bom resultado final: equilíbrio, harmonia e beleza que encanta e atrai.
Projetar um jardim não é tarefa simples, mas é bem simples perceber se um jardim teve projeto ou se não teve projeto.
Viver nas grandes cidades, longe da natureza e sem os belos jardins planejados e projetados com cuidado e amor é tarefa no mínimo triste! Os jardins nos aproximam do Criador.
Como disse Burle Marx certa vez: “A paisagem é definida por uma necessidade estética, não é luxo nem desperdício, mas a necessidade absoluta para a vida humana, sem o que a própria civilização perderia sua razão ética”. Arte e Paisagem, Conferências Escolhidas – Editora Nobel, 1987.